Eu, Feliciano, um avião e um filme

CONVIDADO

Na noite de 25 de junho de 2015, eu observava o movimento no aeroporto de Brasília à procura de algum rosto conhecido do mundo da política, quando levei um susto. A poucos metros de mim, na mesma fila de embarque, uma figura de terno brilhoso e de cabelos penteados para trás ao melhor estilo leãozinho dedilhava tranquilamente seu smartphone, sem notar os olhares de asco que o fulminavam.

Era o deputado federal Marco Feliciano, ícone da bancada evangélica no Congresso Nacional e uma das figuras mais controversas do já controverso cenário político brasileiro.

Foto oficial do deputado federal Marco Feliciano na parede do seu gabinete

Foto oficial do deputado federal Marco Feliciano na parede do seu gabinete

Aquele era o sétimo gol da Alemanha para mim: naquele mesmo dia, eu havia passado cerca de quatro horas esperando pelo parlamentar em seu gabinete, sob a promessa de que ele enfim daria a entrevista para o documentário que eu estava produzindo. A conversa havia sido agendada antes, mas a rotina de votações do Legislativo e um dedo de má vontade da assessoria do deputado frustrariam minhas intenções. Desisti.

No aeroporto, os equipamentos de filmagem na minha mala transitavam em algum lugar a que eu não tinha acesso. Só me restou então ouvir alguns passageiros do voo murmurando de que a presença ilustre justificaria um oportuno desastre aéreo.

Para o meu bem, a praga não pegou e, dias depois, eu veria que entrevistar Feliciano ali não seria necessário. Assistindo às filmagens da minha passagem pelo Congresso, vi que os momentos que registrei dele como uma simples conversa à espera do elevador, seriam reveladores o suficiente para a ideia que eu tinha de filme: tentar retratar a presença dos evangélicos na política por um ângulo diferente do que já havia sido feito.

Foto_Filme_1A ideia de Púlpito e Parlamento surgiu no final de 2014, quando dois evangélicos na corrida presidencial, Marina Silva e Pastor Everaldo, evidenciavam a presença de um dos maiores grupos religiosos do país na busca pelo poder. Em jornais e debates internet afora, choviam opiniões e teorias sobre o que representaria para o país ter um chefe do Executivo com a Constituição embaixo de um braço e a Bíblia embaixo de outro.

Como integrante de uma família evangélica da periferia de São Paulo e estudante de jornalismo na fase final do curso, resolvi fazer um documentário sobre o tema. A ideia era traçar uma linha que partisse da minha casa e chegasse até o Congresso Nacional, buscando entender como o discurso político nasce, cresce e se fundamenta entre os evangélicos no país.

Depois de dez meses de produção e com quase 30 horas de gravação em três cidades diferentes (Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo), o filme tem desde pastores que defendem a famigerada “cura gay” a líderes cristãos do lado oposto, que encampam verdadeiras frentes de batalha na defesa dos direitos humanos.

Durante todo o processo de produção, minha busca foi realizar uma análise particular – pela minha origem evangélica – e diversa – porque não há como ser simplista ao tentar retratar um grupo com 40 milhões de pessoas espalhadas em incontáveis denominações diferentes, cada uma com códigos culturais, sociais e políticos.

Há, no entanto, muito mais questões a serem tratadas sobre esse assunto e das quais o filme (ainda bem) jamais dará conta. Essa incompletude deixa espaço para a análise individual e social, mas de cada um, sobre a diversidade e a tolerância na política, na religião, no dia a dia.

Acredito que esse filme de pouco mais de uma hora pode puxar a reflexão sobre polarizações e reducionismos que reproduzimos, independente do lado que escolhemos nos inúmeros muros que são erguidos – e erguemos – à nossa volta.

Se ele terá o êxito esperado ou não, só mesmo o tempo e os espectadores irão dizer.  Mesmo assim, já fico feliz por ao menos a rota Brasília-São Paulo ter sido feita sem nenhuma turbulência.

Felipe Neves


enois

Política é dia a dia
Dialogar, olhar para o mundo ao redor, tentar entendê-lo e ajudar a construí-lo é fazer política. A galera da Énois indica 5 filmes conectados ao momento atual, em que a política virou assunto do cotidiano e está na boca de todos, para gerar discussões que ampliem o olhar sobre o que é política e a importância dela no dia a dia.
Uma dica valiosa para assistir essas produções e refletir depois de vê-las é ouvir argumentos contrários, buscar mais informação e entender os interesses que estão atrás das posições e opiniões. A dica vale pra gente aprender e fazer política na vida.

1. O Preço (Dir.: Alvaro Costa e Wellington Amorim)
Documentário | 18 min | O dia a dia da campanha de dois candidatos a deputado estadual de São Paulo, nas eleições de 2014, são o gancho dessa produção pra discutir o sistema de financiamento eleitoral e o quanto o preço das campanhas interfere no resultado e nos rumos do país. Você já tinha pensado nisso? Geralmente a gente olha para a lógica das grandes campanhas – como a de presidente – e dos grandes partidos, mas isso rola em todas as esferas e calibres de políticos. O doc usa os dois casos como base para entender e discutir política institucional e a importância de compreender o funcionamento dessa estrutura que define quem comanda o país. Essa compreensão é importante para que a gente possa se posicionar e buscar formas de influenciar o sistema.
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2. Tolerantia (Dir.: Ivan Ramadan)

Animação | 6 min | A animação bósnia é curtinha, mas traz uma discussão forte e super política: o que é a tolerância e quais as consequências de não tê-la? O ponto central no argumento do filme é que, se destruirmos o que somos contra, rifamos nossos próprios argumentos, nós mesmos, e perdemos a chance de nos fortalecermos ou reconstruirmos a partir da divergência – até pra levar a discussão adiante. Um ponto de partida pra discutir pontos de vista diferentes e entender que discordar não é sinônimo de destruir.
tolerantia

3. Púlpito e Parlamento* (Dir.: Felipe Neves)

Documentário | 67 min | Um jovem jornalista evangélico resolve questionar a relação da religião com a política e começa de perto. Pergunta à família a importância da religião e se as orientações da igreja determinam o voto e o modo de pensar. Depois, vai longe. Dos dirigentes de igrejas aos políticos, busca os estereótipos, a complexidade da relação entre estes dois pilares sociais e traz a chance de repensar preconceitos. Por exemplo, ouvindo deputados evangélicos a favor da cura gay e líderes cristãos que defendem os direitos humanos. O documentário serve como um ponto pra discutir generalização, diversidade e, claro, exploração do discurso religioso pra construir poder político e projetos pessoais.
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*O filme está concorrendo a festivais e está temporariamente fora do ar. Logo ele volta. Enquanto isso, vamos torcer! :)


4. Como mudar o mundo (Dir.: Jerry Rothwell)
Documentário | 110 min | Quem quer mudar o mundo ou pelo menos gostaria de saber como fazer isso? O doc traz o roteiro da construção de um movimento pra transformar a sociedade, sem deixar de lado o fato de que são feitos por pessoas. Sim, política se faz com gente e cada um de nós é capaz de influenciar uma mobilização. Aí vem uma questão: a gente quer mudanças pra gente mesmo ou pros outros? Queremos brilhar ou agir? Até onde vamos pelas transformações e onde paramos por nós? O limite entre o individual e o coletivo e como os dois podem – e devem – se encaixar para construir mudanças é o ponto central que esse documentário apresenta, a partir da história e da construção do Greenpeace.

comomudaromundo


5. Escolas Ocupadas – A verdadeira reorganização (Dir.: Jimmy Bro)
Documentário | 22 min | A ocupação das escolas de ensino médio estadual em São Paulo foi um dos mais fortes movimentos políticos que rolaram nos últimos anos. Para além do momento das mobilizações, que é retratado nesse documentário independente, o impacto continua na vida dos jovens que reorganizaram as escolas: nas próprias escolas, na política e no movimento estudantil que está desenvolvendo um braço autônomo onde a galera constrói as mudanças que busca. Esse doc é uma oportunidade para pensar sobre o aprendizado político na prática e também as chances que temos de transformar o que está próximo e como isso muda pra sempre quem somos. escolasocupadas