Por uma sociedade sem manicômios

“A Casa dos Mortos” é título de poema escrito por Bubu, um habitante do manicômio judiciário de Salvador. Sei que erro nos modos e nas palavras – a lei brasileira quer esquecer “manicômio” ou “hospício”, prefere Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Ali vivem pessoas em sofrimento mental que faltaram com a lei, descritos como os loucos criminosos. É, de novo, não estou respeitando as palavras: resisto descrever os malfeitos da multidão como crimes, pois ali não é território dos psicopatas dos seriados de televisão, mas, talvez, de um bando de desordeiros. Há quem tenha cometido crimes graves, é verdade, mas não é esse o perfil dos quase 4.000 habitantes dos manicômios judiciários do Brasil. A maioria agregada está por crimes contra o patrimônio – roubo, para ser mais específica ao Código Penal.

Se falasse como manda a lei, Bubu não seria um habitante, mas um paciente ou, quem sabe, um interno. Bubu já foi e voltou dezenas de vezes do manicômio judiciário de Salvador: é laudado pela psiquiatria as infrações vão de desordem à agressão. É poeta e artista; escreve livros e roteiros de filmes, tem por sonho criar um partido político. No tempo do filme, me fez convite para ser sua vice em futura candidatura, mas os planos não seguiram ao encontro das filmagens. É dele a ousadia de descrever o hospital de forma ainda mais crítica, “casa dos mortos”. É possível que Bubu tenha lido Lima Barreto, “O Cemitério dos Vivos”, ou mesmo Fiódor Dostoiévski, “A Casa dos Mortos”, mas fez juras que a criação foi solitária e sem passado. Sozinho ou acompanhado, Bubu e outros descreveram com a autoridade da sobrevivência os manicômios como território de esquecimento e abandono.

O Brasil viveu um intenso processo de revisão das políticas de saúde mental. Um de seus eixos foi a reforma psiquiátrica que teve como ponto central a abertura dos manicômios: não se cuida de alguém em sofrimento mental com tranca, uniforme ou força, mas pelo direito a estar no mundo. A loucura não é perigosa, é o nosso medo que faz de Bubu e seus companheiros sujeitos incontroláveis. É a falta de assistência em saúde que lança o louco na rua e faz do surto de sofrimento uma cena com potência para o crime. Sei que falo de duas instituições ao mesmo tempo – os manicômios civis e os judiciários; os primeiros abrigavam os loucos comuns, os segundos os loucos criminosos. Há uma razão para isso.

Mesmo no tempo forte da reforma psiquiátrica, os manicômios judiciários continuaram a crescer no país. Na última década se construíram mais unidades que em todo passado – o primeiro manicômio foi criado em 1921 no Rio de Janeiro. Qual o meu receio? Vivemos uma nova onda de crítica à reforma psiquiátrica, há quem defenda o retorno dos hospícios para o tratamento da loucura. As razões são as mesmas do passado: é preciso segregar para cuidar, é no isolamento que a loucura se aquieta. Não posso acreditar numa medicina mais moral que científica: solidão compulsória é sempre castigo, seja para quem sofre por adoecimento, seja para quem sofre e se envergonha por um crime. Os manicômios não curam, não tratam e não fazem justiça. Se você tem dúvidas, assista o documentário, “A Casa dos Mortos”, e guarde o verso de Bubu, pois ali é onde “as mortes são sem batida de sino”.

A Casa dos Mortos (Dir.: Debora Diniz)
Documentário | 24 min | Bubu é um poeta com doze internações em manicômios judiciários. Ele desafia o sentido dos hospitais-presídios, instituições híbridas que sentenciam a loucura à prisão perpétua. O poema A Casa dos Mortos foi escrito durante as filmagens do documentário e desvelou as mortes esquecidas dos manicômios judiciários. São três histórias em três atos de morte. Jaime, Antônio e Almerindo são homens anônimos, considerados perigosos para a vida social, cujo castigo será a tragédia do suicídio, o ciclo interminável de internações, ou a sobrevivência em prisão perpétua nas casas dos mortos. Bubu é o narrador de sua própria vida, mas também de seu destino de morte.

ACM

Extra: Debora Diniz fala sobre as miudezas do filme A Casa dos Mortos.