São 5. Eram 5.

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Todo mundo tem medo de alguma coisa. Medo de barata, medo da escuridão, medo de palhaço. Mas já imaginou ter medo de sair de casa e não voltar mais? Medo de morrer pelo simples fato da sua cor de pele ser estruturalmente discriminada? Medo porque seu direito como cidadão não é respeitado?

Ser preto e sair para ir à casa da namorada usando um capuz que esconde seu rosto, é o suficiente para você ser confundido com bandido em muitos lugares. Ser “bandido” é o suficiente para ser levado até um terreno vazio e distante, ameaçado de morte, torturado psicologicamente. Basta ser preto para carregar um trauma para o resto da vida.

Não é difícil encontrar relatos assim na quebrada. Em 2006, depois de atentados atribuídos ao PCC, a repressão da Polícia Militar virou rotina nos bairros dos extremos da cidade de São Paulo. As vítimas não são mortas, mas se recusam a denunciar ou se manifestar publicamente sobre a violência que sofrem.

Quando a coisa sai do controle, vira manchete. Em outubro de 2016, cinco jovens foram vistos pela última vez saindo para uma festa em São Paulo. Um mês depois, os corpos são encontrados com indícios de execução e estojos de arma calibre 40, o mesmo usado pela PM.

Um ano antes, em novembro de 2015, cinco jovens levam 111 tiros de fuzil da PM do Rio de Janeiro, que alegou estar perseguindo ladrões de carga.

O que eles têm em comum? Características físicas e sociais de 77% das vítimas de homicídio no Brasil. Nos dois casos citados, tivemos amparo e divulgação da grande mídia que, ainda assim, escorrega e tacha de bandido quem é vítima, tornando o genocídio evidente e aceitável se ele tiver uma cor.

Ser jovem no Brasil é viver entre o medo e a coragem. Para alguns, o medo passa por não entrar em uma boa faculdade, não conseguir o emprego dos sonhos. E a coragem os impulsiona para estudar mais, trabalhar melhor. Para outros, o medo é de ser assassinado por um Policial Militar com o aval do estado. Hoje, para cada jovem branco que morre, três negros são enterrados. Nossa coragem é a luta para manter acesas nossas perspectivas e sonhos. A luta contra o extermínio da juventude negra começa todos os dias, assim que colocamos o pé para fora de casa.

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Genocídio da juventude negra

Segundo o Datafolha, em 2015, 60% dos paulistanos admitiram ter medo da polícia. Com recentes casos de jovens mortos pela polícia militar em São Paulo, a discussão sobre a violência policial e o racismo atinge o ápice. Um estudo da UFSCar, de 2014, revelou que 61% das vítimas no estado de São Paulo são negras, 97% são homens e 77% têm de 15 a 29 anos. Esse retrato se repete também em outros estados e municípios. Para debater o tema, selecionamos cinco filmes que tratam do genocídio da juventude negra.

Morri na maré (Dir.: Marie Naudascher e Patrick Vanier)
Documentário | 16 min | Na noite de 24 de junho de 2013, em meio aos protestos das “Jornadas de Junho” – que reivindicavam passe livre no transporte público em várias cidades do Brasil –, no bairro de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, ocorria um arrastão. Por volta das sete horas da noite, agentes do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da polícia militar invadiram o complexo de favelas da Maré, alegando perseguição aos ladrões. A operação percorreu a madrugada, deixando 14 mortos – 1 agente do BOPE e 13 moradores. O mini-documentário Morri na Maré narra o evento da perspectiva dos moradores do complexo, que é uma das maiores favelas do Rio de Janeiro.

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The Gospel (Dir.: A.V. Rockewell)
Documentário | 22 min | O filme reúne personagens negros no cenário da cidade de Nova Iorque. Mulheres em conflito com sua autoestima, homens relatando violência policial e todos sofrendo do mesmo mal: o racismo. O documentário é acompanhado pela poesia e melodias da cantora Alicia Keys.

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Insegurança Pública (Dir.: Raphael Martins e Talita Catosso)
Documentário | 12 min | O mini-documentário questiona a ação da polícia militar do estado de São Paulo após o assassinato de dois jovens de 19 anos, no bairro da Brasilândia, em 2002. O pai de um deles entra com um processo contra a PM, sob a acusação de homicídio doloso.

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Meu guri – Além do castigo(Dir.: Bianca Santos e Gabriel Freires Arruda)
Documentário | 17 min O encarceramento de jovens no Brasil está intimamente ligado com a questão da cor. Quem vai preso é negro, pobre e de favela, os dados e a realidade mostram isso. É com base nessa desigualdade que o filme explora raça, violência, e aborda a redução da maioridade penal e como isso impacta a sociedade brasileira, piorando as desigualdades.

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Estopim (Dir.: Rodrigo Mac Niven)
Documentário | 80 min | Em 14 de julho de 2013, Amarildo Dias de Souza, de 43 anos, pai de família e pedreiro, foi torturado até a morte por policiais militares na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. O fato colocou em questão o processo de pacificação implementado nas favelas do Rio desde 2008. No filme, sequências de documentário são entrecortadas com cenas ficcionais para contar a vida de Amarildo.

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