Por Que Precisamos Falar Sobre Corpo E Comida?

Na era do Instagram e Masterchef, falar de comida virou uma questão quase diária. Hoje, 31 de agosto, para comemorar o Dia do Nutricionista vamos fazer uma reflexão sobre o assunto, que nem sempre é tão saboroso assim.

Pense em um bolo de chocolate.

Qual é a primeira palavra que lhe vem à cabeça? Para alguns talvez “celebração”, “aniversário”, “gostoso” e para outros, imagino que possa vir “culpa”, “errado”, “proibido”. Esses conceitos negativos têm uma carga moral embutida e nem parece que estamos falando de comida.

Atualmente, falar de comida é ter um “dia de lixo”, é falar que não precisava ter comido aquela sobremesa ou que deveria ter corrido mais na esteira ontem. É falar da mulher famosa que apenas um mês depois de dar à luz, impressionantemente, voltou ao corpo de antes da gravidez. Isso sim é força de vontade, hein? É estar fazendo a dieta da moda ou chutar o pau da barraca, afinal de contas, só se vive uma vez.

Podemos imaginar que a preocupação com o que se come é essencial, já que a população mundial vem mesmo engordando e ficando mais sedentária. Mas essa obsessão é exitosa ou desastrosa? Quem já experimentou começar uma dieta na segunda-feira sabe bem que lá pela quinta a única coisa que vem à cabeça é uma macarronada com muito queijo e uma bandeja farta de brigadeiro. É exatamente essa privação que leva ao exagero alimentar, seguido (quase sempre) de culpa e potencial de nova privação, instaurando um ciclo clássico que, infelizmente, atinge muitas pessoas que a cada início de dieta tem a certeza de que, dessa vez, conseguirão ter a força de vontade necessária.

Acreditem, não é falta de força de vontade. É a dieta que tem prazo de validade.

A literatura científica aponta que apenas 5% a 10% delas funcionam, ou seja, se 100 pessoas fazem uma dieta, entre 90 e 95 indivíduos recuperarão todo o peso perdido (ou mais) nos anos seguintes. Se isso fosse um remédio, com certeza não passaria no controle de qualidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

E como a nossos corpos, auto estimas e confianças ficam, depois de inúmeras tentativas frustradas de manter uma dieta? A insatisfação corporal aumentou consideravelmente nos últimos 30 anos, tornando-se uma das principais preocupações entre os jovens. Crianças e adolescentes já associam felicidade e sucesso à corpos magros. E não confunda isso com um discurso de saúde.

Em maio, a Royal Society for Public Health disponibilizou um relatório de uma pesquisa cujo objetivo foi investigar como as redes sociais impactam na saúde mental dos jovens. Instagram e Snapchat foram apontados como os mais nocivos, sendo relacionados ao aumento de ansiedade, depressão, piora da autoestima e autoimagem. A maioria esmagadora dos voluntários ouvidos relatou que os aplicativos os fazem se sentir pior em relação à própria imagem e infelizes com seus corpos.

Há quem diga que isso não é geracional, que padrão de beleza sempre existiu em todas as sociedades, desde a Grécia antiga. Sem dúvida! Mas o ideal de beleza atual é bastante cruel. Além de magros, temos que ser malhados, secos e trincados. Vislumbramos um corpo que não existe. O tratamento que as imagens recebem antes de serem postadas é cuidadoso e, de tanto sermos expostos a isso, até acreditamos que são fotos reais. Vamos lá, seja crítico: os corpos perfeitos do Instagram são fruto de muito treino no Photoshop.

O cenário é, sem dúvida, desanimador, mas uma luzinha no final do túnel vem aparecendo. Inúmeros movimentos vem propondo estratégias para nos reapropriarmos de nossos corpos, aceitarmos a diversidade como o que há de mais belo, sermos menos autocríticos e treinarmos  o filtro de informações e de imagens tóxicas. Parece um caminho impossível, mas em doses homeopáticas ele vem se concretizando.

Experimente acordar todo dia e dizer algo bom sobre o seu corpo. É libertador!

A sociedade não está interessada em dizer que somos bonitos, já que existem tantos cremes, procedimentos e tratamentos que nos aproximam do tal padrão utópico. Seja a resistência. O processo de aceitação é tortuoso, mas necessário, e lembre-se que nosso corpo é uma ferramenta e não apenas um adorno.

Bom, mas e a comida no meio de tudo isso? Concluo com uma definição do que é comer saudável para a nutricionista norte-americana Ellyn Satter, livre de modismos e rigidez.

“Alimentar-se normalmente é ser capaz de comer quando você está com fome e continuar comendo até você ficar satisfeito. É ser capaz de escolher as comidas que você gosta e comê-las até aproveitá-las suficientemente – e não simplesmente parar porque você acha que deveria.

Alimentar-se normalmente é ser capaz de fazer alguma restrição na seleção alimentar para consumir as comidas certas, mas sem ser tão restritivo a ponto de não comer as comidas prazerosas.

Alimentar-se normalmente é dar permissão a você mesmo para comer às vezes porque você está feliz, triste ou chateado ou apenas porque é gostoso. É também deixar alguns biscoitos no prato porque você pode comer mais amanhã ou então comer mais agora porque eles têm um sabor maravilhoso quando estão frescos.

Alimentar-se normalmente é comer em excesso às vezes e depois se sentir estufado e desconfortável. Também é comer menos de vez em quando, desejando ter comido mais.

Alimentar-se normalmente requer um pouco do seu tempo e atenção, mas também ocupa o lugar de apenas uma área importante entre tantas da sua vida. Resumindo, o comer normalmente é flexível e varia em resposta a emoções, agenda, fome e proximidade com o alimento.”

Viva o Dia do Nutricionista!

¹Alvarenga M, Figueiredo M, Timerman F, Antonaccio CMA. Nutrição Comportamental. São Paulo: Manole; 2015

—————————

Manuela recomendou o documentário “Embrace”.

Idealizado pelo Body Image Movement (BIM) – Movimento de Imagem do Corpo, o filme reúne depoimentos de mulheres ao redor do mundo, sobre a aceitação do próprio corpo.

Ele foi gravado por Taryn Brumfitt, fundadora do BIM, que inspira mulheres através de suas experiências pessoais de mudanças físicas e relação com seu corpo.