Dia Nacional do Livro – Livros ajudam a ler melhor a vida

Fica claro quando alguém fala

“É que o escuro fica mais claro quando alguém fala” – disse o menino ao ser questionado sobre o motivo pelo qual sempre pedia à tia que falasse com ele em voz alta, na hora de dormir, assim que as luzes eram apagadas. Essa passagem consta em um dos tantos relatos de Sigmund Freud.

A “claridade” da voz do adulto auxiliava o menino como um farol, um ponto de passagem entre a luz e a escuridão. Assim, a penumbra se instalava como um espaço intermediário para o enfrentamento do medo, do desconhecido. A voz, a palavra, tornava o oculto suportável.

“Um livro é a voz de alguém”[1] que se materializa num texto literário com todo seu potencial simbólico. Nomeia o que não está claro, ajuda a encontrar respostas para perguntas não formuladas que, quando caladas, podem provocar feridas invisíveis e devastadoras.

 

Outras vozes na minha voz

Contar e ouvir histórias é uma das necessidades psíquicas mais antigas do homem. Por meio das vozes e das narrativas daqueles que viveram antes de nós – e dos que nos são contemporâneos – é que nos constituímos como pessoa,  alguém que se reconhece no coletivo considerando o outro e a si mesmo.

Se inicialmente as narrativas nos acalantam e nos permitem experimentar o sentimento de acolhimento e pertencimento a um pequeno núcleo, mais adiante nos ajudará a conviver com a busca do sentido da existência: conhecemos outras vidas, outros tempos, outras realidades, descobrimos que outras pessoas existiram antes de nós e que outros existirão depois que não mais existirmos.

A leitura literária reflete nossa finitude e perenidade. A literatura nos permite descobrir-nos singulares e, ao mesmo tempo, reconhecermo-nos apenas como um dos pequenos elos de uma infinita corrente chamada humanidade.

 

Viver de mentirinha

Desde a infância, precisamos  viver “de mentirinha” outras vidas.  Pegamos a pele das personagens emprestada para entrarmos em contato simbolicamente com temas que nos são incompreensíveis, indizíveis, impensáveis.

Quanto mais recursos uma criança tiver para nomear e entender aquilo que vive e sente, quanto mais capacidade para reconhecer e expressar seus medos, angústias, desejos, raiva, esperanças, frustrações, entre outros sentimentos, por meio da ficção, mais recursos internos terão para interagir, por meio do entendimento, com as diferenças, as diversidades e as adversidades. Entrar em contato com o que o outro sente e pensa pode nos levar também a compreender o que está escuro em nós mesmos.

Talvez essa seja uma das mais importantes contribuição que os adultos possam dar aos pequenos: ajudá-los a construir, por meio das narrativas, paredes seguras que os fortaleçam para que se sintam seguros e possam, aos poucos, construir e habitar sozinho seu próprio mundo interior.

 

Conta de novo?

“Conta de novo?” É costume que as crianças peçam para que um livro seja relido ou uma história recontada. É assim que conciliam a necessidade de viver outras vezes a experiência provocada pela narrativa com o desejo de permanecer na companhia do adulto. Um tempo singular em que a convivência aproxima o mundo real do imaginário.

Leitura e construção de laços de afeto andam de mãos dadas.

A escritora e especialista em literatura infantil  colombiana Yolanda Reyes[2] compara a literatura a uma “casa imaginária”, onde a leitura é um espaço de aconchego e de acolhimento no qual a criança tem oportunidades de estabelecer relações muito verdadeiras com o mundo, com o outro e consigo mesmo.

No livro, e talvez na vida, a verdade anda junto com a dúvida. Não é binária nem única. São vozes somadas. As várias vozes que dialogam durante a leitura: a do autor, a do narrador, a do leitor, a do mediador….

 

A escolha do livro revela a disponibilidade para o diálogo

Escolher um livro exige disponibilidade para a aceitação de que o outro possa divergir de nossas interpretações, de nossos valores e de nossos pontos de vista.  A especialista em Literatura Infantil argentina Cecilia Bajour fala que a escolha do livro pelo adulto revela nossa disponibilidade  para o diálogo e para a escuta, para aceitar e apreciar a palavra do outro. [3]

Na tentativa talvez de se protegerem dos próprios “não sei”, das perguntas inusitadas das crianças, do silêncio que embaraça, muitos adultos acabam por escolher para as crianças livros “conciliadores”: aqueles que não provocam conflitos e, consequentemente, não encostam nos não ditos, nos dilemas nem propiciam discussões. Essa atitude reforça uma preocupante tendência à seleção reducionista, que limita o que é oferecido ao já conhecido, ao familiar, ao óbvio, ao que não incomodará ninguém. Nesse contexto, a escolha do livro acaba submetida às regras de um jogo social da conveniência: o que se pode falar e  o que é necessário calar.

O escritor e crítico literário inglês Aidan Chambers, acredita que crianças e jovens devem conviver com “livros transformadores”[4] – aqueles que não temem os lugares incomuns, que enriquecem e revolvem de alguma forma a nossa existência e nossas referências.

Quando a seleção de livros é regida por critérios censores, perde-se oportunidades preciosas para que os leitores se tornem pessoas críticas e éticas.

 

Livros como Cavalos de Troia

O autor, editor e pesquisador mexicano Daniel Goldin[5] gosta de pensar o livro como um Cavalo de Troia que adentra as salas de aula, as casas, as bibliotecas como um exército de soldados escondidos, provocando descobertas e inquietações inesperadas nos lugares mais insuspeitos. É uma imagem bonita e sugestiva que pode representar o quanto desconhecemos a respeito do leitor e da relação/reação que ele estabelecerá com o livro literário durante a leitura.

Um livro que ameaça a paz reinante pode talvez ser lido de duas maneiras: Por que colocar um cavalo de Troia onde antes estava tudo tão sob controle? Ou: Por que não colocar um cavalo de Troia onde tudo parecia estar aparentemente controlado?

Cavalos reais, e não os mitológicos, são capazes de fazer inúmeros estragos quando recebidos sem o escudo da linguagem simbólica da literatura.

 

Livros que perdemos e que encontramos pelo caminho

“O que seriam livros imperdíveis?” Livros que, depois de lidos, nunca se perdem dentro de nós? Livros que permanecem na memória afetiva e intelectual de cada leitor durante muitos anos, às vezes durante toda a vida? Livros dos quais nunca nos perdemos, que encontram um lugar cativo em nossa biblioteca interior e que são resgatados sempre que nos lembramos ou necessitamos deles, como a mão de um amigo sempre pronto a nos acompanhar?

“Alguns livros abrem em nós uma fenda que não nos permite esquecê-los. Não se trata exatamente dos melhores livros, mas daqueles que nos disparam uma flecha que, como o amor, como o amado, não atinge a todos igualmente. Não entesouramos o livro mais bem escrito, mas aquele que se aloja em nossa memória, continua nos questionando acerca de nós mesmos”[6], afirma a escritora argentina María Teresa Andruetto.

O livro imperdível, aquele que não se perde dentro da gente, não propicia uma única leitura, até porque um livro não fecha nada, apenas abre possibilidades para ler melhor a vida.

 

[1] Chloé Legeay, Para que serve um livro, Editora Pulo do Gato.

[2] Yolanda Reyes, A Casa Imaginária, Editora Global.

[3] Cecilia Bajour, Ouvir nas Entrelinhas, Editora Pulo do Gato

[4] Aidam Chambers, Dime, Fondo de Cultura Economica, México.

[5] Daniel Goldin, Os dias e os livros- a hospitalidade da leitura, Editora Pulo do Gato

[6] María Teresa Andruetto, Por uma literatura sem adjetivos, Editora Pulo do Gato

 


Para acompanhar essa reflexão sobre a literatura em nossas vidas, Márcia recomenda os seguintes filmes:

Minhas tardes com Marguerite

Fahrenheit 451

Histórias Cruzadas

A Menina Que Roubava Livros

O Leitor

Mãos Talentosas: A História de Ben Carson

Sociedade dos Poetas Mortos

O Clube de Leitura de Jane Austen

(Os trailers oficiais nem sempre são legendados. Você pode fazer sua busca independente para encontrar versões com legendas).

Além desses filmes, VIDEOCAMP e Márcia recomendam juntos, dois filmes disponíveis na plataforma que se relacionam ao tema:

Mercy’s Blessing (Uma Escolha) fala sobre a acessibilidade à leitura em uma comunidade rural do sul da África e as diferenças de oportunidades de estudo e vida para uma menina e um menino.

Menina Espantalho fala e sobre as oportunidades de estudo e o desejo de ler de uma menina em uma cidade rural do Brasil, trazendo também a diferença entre ser um menino ou uma menina nessa situação.