[Diálogos] O papel dos homens no fim da violência contra as mulheres: uma questão social

Em 1998, o antropólogo francês Pierre Bordieu lançava a primeira edição de um livro que traria gigantesco impacto na maneira como as sociedades contemporâneas enxergam as relações de poder entre homens e mulheres. “A Dominação Masculina” é, desde então, uma importante referência nos campos das ciências sociais e também da psicologia.

Em seu livro, Bordieu traça um panorama de como a lógica da dominação masculina perpetuada ao longo dos tempos trata-se, na verdade, de um arbítrio cultural naturalizado ou, o que o autor denomina, de paradoxo da dóxa: um sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora por julgar tratar-se de uma verdade óbvia, mas que, para a filosofia, não passa de uma verdade ingênua, que deve ser superada em busca do verdadeiro conhecimento. A crença de que mulheres são naturalmente inferiores aos homens constituiria, segundo o autor, tal paradoxo.

Na tentativa de combater essa naturalização que, nas palavras de Bordieu, trata-se de um processo de “violência simbólica, suave, insensível e invisível a suas próprias vítimas” – no caso, as mulheres – o governo brasileiro sanciona em 20 de junho de 2007 a lei nº 11.489 que institui o dia 6 de dezembro como o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Para celebrar esse avanço, o VIDEOCAMP começa uma série de diálogos neste que já é o 10º ano da data para entender: o que mudou de lá pra cá? Como os homens têm de fato se engajado nesta causa? Acompanhe.

Eliza Capai, cineasta

Em seu filme “No devagar depressa dos tempos”, 3 personagens – e, em especial, suas falas – nos chamaram a atenção:

  • O Chefe: “A qualidade do homem é superior, a da mulher, inferior; porque o homem é o gigante da mulher”
  • Luzia: “Ser mulher? [pausa] Ser mulher é mulher”
  • Norma: “Fazer o que, né? Destino é destino.”

“Pra mim foi muito forte a chegada em Guaribas, porque todo mundo lá me disse que eu deveria falar com o Chefe. Ele é ex-professor da cidade, é o homem-sábio. Eu fui pra Guaribas depois de ler o livro “Vozes do Bolsa Família”, justamente pra ver lugares em que a mulher é o único membro da família que recebe um dinheiro todo mês e que isso iniciava uma transformação nos papéis de gênero. Então eu fui pra Guaribas pra entender se isso estava acontecendo ou não. E, enfim, todo mundo me falou para conversar com esse homem-sábio e eu pensei que, de certa forma, estaria observando se essa modificação está acontecendo. A minha pergunta surge desse desejo de aprovação por esse homem inteligente daquela cidade. E imagine que eu estava gravando um filme sozinha. Eu lembro da sensação que senti quando ele falou aquilo, porque, de alguma forma, ele estava falando “você é inferior a mim”.

Como que naquele lugar era permitido ser verbalizado aquilo em frente a uma câmera? Porque eu tenho certeza de que em muitos outros ambientes que a gente frequenta nas grandes cidades e em vários dos nossos grupos, muita gente pensa isso, homens e mulheres, mas na maioria desses grupos não há espaço de fala mais pra isso, porque a gente está transformando tanto, felizmente, esse cenário de machismo que isso já não é aceito – algumas pessoas pensam e outras fazem, no máximo, uma piadinha. Mas, naquele lugar de fala, naquele local geográfico, era permitido ser dito isso, era permitido ser gravado isso; aquilo era uma verdade ali.

“De alguma forma, ele estava falando ‘você é inferior a mim’. […] aquilo era uma verdade ali”

Quando eu conversei com a Luzia, que é filha do Chefe, eu pergunto “o que é ser mulher?” e ela me responde “ser mulher é mulher”, faz pausas e repete isso três vezes. Pra mim, não poderia ter resposta mais forte do que aquilo. Ser mulher é isso, ponto.

Com a Norma era muito claro que a mulher não tinha um lugar de se pensar enquanto mulher e de ser ativa ali, de poder transformar aquela situação. Quando ela me responde sobre esse lugar de aceitar, me lembrou muito o livro “Vozes do Bolsa Família”, associando a questão da pobreza em geral. Quando você vem de uma realidade em que não há espaço para se pensar o que fazer, precisa pensar no que comer, precisa pensar na sobrevivência mais básica, precisa pensar se tem água ou não, se seu filho está chorando de fome ou não, quando toda a sua existência está baseada nisso, não há espaço para se questionar como deveria ser, não há espaço para se pensar um sonho e se pensar como mudar essa situação. Norma expressa muito bem isso. Eu sinto como um espaço de fala da mulher naquela sociedade, mas também como um espaço de fala da miséria, que pra quem é classe média como nós, é um lugar absolutamente violento. Eu acho que a principal violência no nosso país é a miséria.

O mais forte pra mim é quando eu vou entrevistar as crianças, que eu nem tinha pensado tanto em conversar. Quando eu perguntei pra Norma o que ela sonhava em ser quando era criança, o sonho dela era “apanhar um bom marido”. Todas as mulheres relacionavam o sucesso no futuro com a presença masculina. Quando eu perguntei pra todas as crianças – não foi uma coisa de edição – sobre o futuro, elas negavam o masculino, negavam um marido na vida delas, negavam ter filhos. Porque elas se negavam a estar naquele espaço que elas viram as mães delas crescerem que, entendo eu, é esse espaço em que a mulher é inferior ao homem. Elas queriam ser superiores. Naquele momento, ser superior para elas era ser mulheres independentes.

“A principal violência no nosso país é a miséria. […] Se a gente não pensa em políticas públicas efetivas, que garantam a condição básica dessas mulheres, é impossível  falar em igualdade de gênero”

Se a gente relaciona isso com a história do feminismo, se a gente volta lá nos anos 60 em Simone de Beauvoir, ela vai falar que o primeiro passo para a independência da mulher é a independência financeira. Essa geração de crianças, essas meninas já não vão ser mais inferiores ao homem, elas já não vão mais permitir que os homens sejam seus gigantes. Isso pra mim foi absolutamente forte de entender. Se a gente não pensa em políticas públicas efetivas, que garantam a condição básica dessas mulheres em estado de miséria, é impossível falar em igualdade de gênero.

Eu realmente só acredito que uma sociedade feminista é possível no dia que os homens forem feministas também. Que as mães sejam feministas e ensinem paras suas filhas e pros seus filhos sobre feminismo; que os pais e esses novos meninos também sejam. E a partir disso, homens mais sensíveis à situação comecem a entrar nesse discurso e também se forcem a respeitar e mostrem para os seus pares como a gente vai ter uma sociedade muito mais positiva para todos, homens e mulheres, a partir disso. Isso me faz sonhar que um dia vai ser possível uma sociedade feminista que, aqui, entendendo como uma sociedade em que as pessoas não são julgadas a partir do seu gênero.”

Este post é o primeiro da série “Diálogos – O papel dos homens no fim da violência contra as mulheres”. Acompanhe o blog do VIDEOCAMP e participe do debate. Em breve, um novo post sobre o assunto. 😉