[Diálogos] O papel dos homens no fim da violência contra as mulheres: sobre as demandas femininas

Em seu livro “Três Guinéus” (1938), a escritora feminista Virginia Woolf descreve o que chama de o “poder hipnótico da dominação”. Para ela, vivemos numa sociedade que impõe aos homens o papel de figuras autoritárias, “de pulso rude”, programados a inscrever “místicas linhas de demarcação, entre as quais os seres humanos ficam fixados, rígidos, separados, artificiais”. E, sobre a condição da mulher, é ainda mais incisiva:

“Nós, ‘suas mulheres’, nos vemos fechadas na casa da família, sem que nos seja dado participar de nenhuma das numerosas sociedades de que se compõem a sociedade”.

Passados quase 80 anos, as palavras de Woolf mantêm-se atuais e não só descrevem a condição de violência que as mulheres enfrentaram até então, mas também preconizavam uma alarmante realidade a ser enfrentada ainda hoje – em especial no Brasil, como revela o infográfico abaixo.

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FONTE: DATAFOLHA/FBSP

 

Na tentativa de somar esforços no enfrentamento dessa realidade, a cientista social e escritora Mariana Varella atualiza, periodicamente, seu blog pessoal Chorumelas. Criado a princípio para compilar suas publicações espalhadas pela rede, a demanda por uma voz feminina e feminista veio naturalmente. “Comecei a escrever para o Quebrando o Tabu, especificamente sobre questões ligadas à mulher e aí eu comecei a ver que existia uma demanda muito grande por esse tipo de material”, conta.

Em entrevista para o VIDEOCAMP, Mariana discorre sobre os principais avanços e entraves no combate à violência de gênero no Brasil e comenta sobre a participação masculina nesse processo. Acompanhe.

 

VIDEOCAMP: Qual a sua perspectiva sobre o cenário de violência contra mulher hoje no Brasil?

MARIANA VARELLA: O que chama muito a atenção é o número de casos de feminicídio. Quando o feminícidio não era definido por lei, essa estatística se perdia no meio das estatísticas sobre violência no geral, então a gente não sabia exatamente quais crimes eram motivados por questões de gênero. A gente só sabia que mulheres tinham sido assassinadas, mas a gente não tinha esse nome, “feminicídio”. A lei veio no sentido de nomear, o que fez com que as estatísticas ficassem mais acessíveis – o número de mulheres que morrem/são assassinadas por serem mulheres. Quase sempre assassinadas por parceiros ou por homens que queriam se tornar parceiros e acabaram, diante da negativa delas, cometendo o crime. Isso mudou muitas coisas. A gente pede agora para a imprensa parar de chamar esse tipo de crime como “crime passional” ou “crime motivado por ciúmes”, isso é mais na esfera da lei.

O número de estupros também é uma coisa absurda. Quando a gente começou a olhar mais pra essa questão, inclusive dentro dos relacionamentos, a gente começou a ver que a maioria dos estupros acontece dentro de casa, cometidos por pessoas próximas da vítima, que tem relação de parentesco muitas vezes – pais, irmãos, tios, avós, maridos.

Tem também a questão do aborto,. A partir do momento que a gente nega o direito ao aborto para mulher, a gente está cometendo uma violência de gênero também. E aí é mais difícil de ter dados mais precisos pela própria natureza do aborto, porque é considerado crime e a gente não consegue ter dados, que são bem alarmantes.

E tem também a violência doméstica. Quando também se começou a denominar essa violência de uma coisa diferente da violência geral, a gente começou a ver que os dados também são alarmantes e sempre foram tolerados como algo “natural” ou “briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, essas coisas.

 

VIDEOCAMP: Qual sua visão sobre o advento de leis como do Feminicídio e Maria da Penha?

MARIANA VARELLA: Eu acho extremamente importante. Essas leis têm um caráter educacional muito importante a partir do momento que você nomeia a violência. Nomear a violência é muito importante. Bater na namorada não é uma coisa normal, é uma violência; Fazer sexo sem consentimento não é “sexo”, é estupro. Nomear mesmo, dizer o que é. É como no caso da violência contra criança. Historicamente, até pouco tempo atrás, era normal os pais baterem nos filhos e isso era considerado normal. A partir do momento que isso foi nomeado, foi dito “não, isso não é normal, isso é violência”, que a gente começou a ver que os índices diminuíram tanto. Essas leis são muito importantes no sentido de nomear a violência, na prevenção e também na responsabilização dos culpados.

 

A gente tem que ter o poder e a capacidade de ser ouvida, de se autodefinir e de dizer quais são as nossas demandas.

 

VIDEOCAMP: Na tentativa de se amplificar essa discussão, como é possível “furar a bolha”, ou seja, dialogar com públicos tão diferentes entre si a respeito do assunto?

MARIANA VARELLA: Quando a gente vai falar com outras realidades que não são as nossas, a gente primeiro precisa entender quais são essas realidades. Eu tenho muito problema com generalizações do tipo: “ as mulheres sofrem tal coisa”. De que mulheres a gente está falando? Não existe uma categoria chamada “mulher”. Existem várias categorias de mulheres e não uma categoria única. Se você está falando com uma mulher jovem, de periferia, negra, você está falando com um tipo de mulher, com um tipo de perfil, com uma realidade totalmente diferente de uma mulher na faixa dos 40 anos, branca, de nível universitário. É muito importante pra gente sair das nossas bolhas, conhecer as diversas realidades e as demandas dessas realidades. Por exemplo: falar de índice de gravidez na adolescência. É muito diferente falar disso na periferia e nos bairros nobres de São Paulo. A gente tem visto a taxa de gravidez na adolescência caindo, mas onde? Nos bairros nobres das cidades, nas capitais. Enquanto que em certas regiões do nordeste, do norte, esses índices ainda são bastante altos. Não adianta as gente ficar falando entre a gente sobre questões que são importantes só pra gente. Se a gente quer realmente mudar a condição de violência contra mulher e questões de gênero, a gente precisa muito conhecer outras realidades e tentar atender essas demandas. Existem várias ações mais locais que a gente vê que funcionam. Grupos, por exemplo, em regiões mais periféricas, que se autogerem e são mais horizontais, que trabalham com demandas dessas mulheres naquele local. Quando a ação se propõe mais global, existe uma dificuldade grande aí exatamente porque nós somos muito diversas e a gente vive num país extremamente desigual. É muito difícil encontrar uma ação global tendo que lidar com tantas diferenças, com tantas demandas diferentes. A gente precisa ter esse cuidado primeiro de ver com quem a gente vai falar e pensar nessas ações conjuntas que possam atender a demandas diversas.

 

VIDEOCAMP: Quais os principais entraves para a realização dessas ações?

MARIANA VARELLA: Primeiro, o preconceito. O que é ser mulher sempre foi definido por um olhar masculino e branco. Quem sempre disse o que é ser mulher não somos nós, não são as mulheres que se autodefiniram, foi definido pelos homens. A gente vê que tem um preconceito e uma ignorância muito grande sobre o que é ser mulher. De novo: não existe uma categoria de mulher, mas ser mulher já começa daí. Quer dizer, começa errado daí. Aquela definição: “ah, mulher é isso; mulher é frágil, é delicada”. Se fala isso de um grupo de mulheres, essa visão foi definida por homens. É uma falta de compreensão das demandas verdadeiras da mulher. A gente tem que ter o poder e a capacidade disso, tem que ser ouvida, se autodefinir e de dizer quais são as nossas demandas. A mulher tem muito pouco espaço pra fazer com que as suas demandas sejam ouvidas e a sociedade é toda organizada em torno das demandas masculinas. Por exemplo: a mulher tem muito mais dificuldade, quando ela engravida, de continuar no mercado de trabalho, porque o mercado de trabalho foi todo organizado pensando nas necessidades masculinas.

Segundo, a gente tem uma disputa de representatividade: na política, nas grandes esferas de poder e nas micro esferas de poder também – dentro das empresas a maioria das mulheres não consegue ocupar cargos de chefia. Na representatividade política, também. Isso torna mais difícil que as demandas das mulheres cheguem às esferas de poder que poderiam de fato mudar a realidade.

 

VIDEOCAMP: Qual o papel dos homens nesse enfrentamento?

MARIANA VARELLA: Acho a questão do protagonismo feminino bastante importante. Isso de dizer se homem pode ser feminista ou não é uma discussão bastante comum dentro e fora do feminismo. Eu, pessoalmente, não falando como porta-voz do movimento feminista – até porque isso nem existe – , eu acho que é importante ter um movimento que seja protagonizado por mulheres. Exatamente por aquilo tudo que eu te falei. A gente costuma ser definida como “o outro”, a gente nunca teve muito poder de autodefinição e também de estabelecer as nossas demandas. É importante que a gente tenha um espaço que seja nosso, constituído por mulheres, por essas mulheres diversas, que possam dizer suas demandas. Neste sentido, é importante que o feminismo fique nas mãos das mulheres.

Quando um homem se declara feminista a gente está dando ao homem um poder que ele sempre teve: o de determinar. Se ele é feminista, ele está dentro do movimento, então ele poderia, teoricamente, falar por essas mulheres, “dar pitaco” nas demandas. Isso eu acho um pouco perigoso, porque a gente já conhece onde vai dar.

Isso não quer dizer de forma nenhuma que os homens não possam participar dos debates ou não possam ser parte ativa no combate à violência contra mulher. Se a gente pensar que a gente sempre diz assim: “Tantas mulheres foram estupradas, tantas mulheres foram assassinadas”. A gente está anulando o fato de que tem um agente por trás dessa questão. “Tantos homens estupraram mulheres”, “tantos homens bateram em mulheres”. Se o homem é o agente, ele tem que estar incluído nesse debate. Eu sei que muitas vezes os homens ficam até com medo “Mas, como eu vou participar? Se eu não sou feminista, como eu posso falar disso?” ou ele pensa, por exemplo, “bom, eu não sou feminista, beleza, então eu não posso falar pelas mulheres; eu não bato em ninguém, nunca cometi nenhum estupro, então também não posso falar como agressor”. Ele fica em um “não-lugar”, não tem de onde ele falar. Só que, na verdade, mesmo ele nunca tendo cometido um ato de violência contra mulher, ele faz parte de um grupo social que comete. A gente tem muita dificuldade de se pensar como membros de grupos sociais e tende muito a individualizar as questões.

Como agir? Primeiro: atuando na prevenção, conversando com amigos quando vir atitudes machistas, educando os próprios filhos, lutando para que as escolas abordem essas questões, revendo as próprias atitudes machistas, refletindo sobre masculinidades. Esse papel que a gente tem do homem macho, viril, provedor, também é nocivo para os homens, em um nível diferente, obviamente, mas também é. Eu converso com crianças em escolas e fico impressionada o quanto as pessoas não percebem que os meninos também sofrem de terem de cumprir esse papel. E esse sofrimento vai levar a respostas e atitudes machistas mais pra frente.

Você, como categoria social, está dentro de um grupo, responsável por determinadas atitudes e comportamentos. Você tem responsabilidade porque influencia e é influenciado por esse grupo. Todo mundo tem muita dificuldade de pensar nisso. As minorias, por estarem sempre meio à margem, por precisarem organizar mais os grupos para que essa voz seja ouvida, aprenderam, de certa forma, a agir melhor em grupo, atuar mais em grupo. Só que os homens ainda tem muito essa visão mais individualizada.


 

Este post faz parte da série “Diálogos – O papel dos homens no fim da violência contra as mulheres”. Acompanhe o blog do VIDEOCAMP e participe do debate. Em breve, um novo post sobre o assunto.