Os Direitos Humanos e a Cidade de São Paulo

O documentário Cartografia de Direitos Humanos é parte de um projeto mais amplo em torno do tema educação em direitos humanos, que foi conduzido por professores e funcionários vinculados à Cátedra Unesco de Educação para Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância sediada no Instituto de Estudos Avançados da USP entre 1996 e 2014.  

O projeto nasceu da identificação da dificuldade por parte dos educadores de sensibilizar o público, dentro e fora da universidade, para a importância de temas como dignidade humana, respeito, igualdade, liberdade, todos eles de alguma forma contemplados pela filosofia e pela linguagem dos direitos humanos. As dificuldades envolvem razões diferentes, mas estão de um modo geral relacionadas a concepções equivocadas do que são os direitos humanos, para que servem e a quem beneficiam.

Assim, desde a redemocratização no Brasil, foi difundida a ideia de que os defensores de direitos humanos são defensores dos “direitos dos bandidos”; uma caricatura de um movimento amplo que na realidade questiona a violência policial e a distribuição desigual da justiça. Essa noção também oblitera uma atuação corajosa e transformadora de ativistas pelos mais variados direitos humanos – todos eles relacionados a dimensões fundamentais da nossa cidadania, como o direito à livre-expressão, à não-discriminação em função da cor, nacionalidade, religião, sexo, gênero, entre outros. Vale lembrar que o Brasil é hoje um dos países onde mais se mata defensores de direitos humanos no mundo, sobretudo aqueles ligados a trabalhadores rurais e povos indígenas.

De outro lado, nos telejornais e cursos de relações internacionais somos bombardeados com números hiperbólicos envolvendo a gramática dos direitos humanos para nos falar de uma violência descomunal e assustadora em contextos de guerras, genocídios e atos terroristas que provocam muitas vezes  a sensação de que o problema das violações de direitos humanos é, a um só tempo, intangível e insolúvel e, portanto, não adianta se ocupar com ele.

Finalmente, mais recentemente, vemos uma descrença generalizada nas instituições democráticas e no estado de direito, que afeta vários países no mundo, mas que é particularmente preocupante no Brasil, atolado em uma crise política que envolve os três poderes desde 2013, e que leva muitos jovens a concluírem que nada mudou no Brasil desde sua redemocratização.

Diante desse quadro, ao relacionar o tema dos direitos humanos com a vida e o cotidiano das pessoas, o projeto em questão e o documentário que faz parte dele propuseram uma modesta contribuição, visando fomentar o debate e promover o conhecimento sobre o significado e sobre a história da luta por direitos. Através da nossa cartografia procuramos aproximar a conquista de direitos do mapa de São Paulo e evidenciar que a luta por dignidade e respeito faz parte da vida de todos nós e acontece em nossa cidade.

Para isso, entrevistamos algumas pessoas ligadas a momentos-chave da nossa luta comum por cidadania, como a educadora Margarida Genevois, figura importante na resistência ao regime autoritário, que contribuiu através da sua atuação na Comissão Justiça e Paz para ajudar perseguidos políticos não apenas do Brasil, mas de toda a América Latina. Conversamos também com as lideranças indígenas Marcos Tupã e Jerá Giselda, que lutam até hoje pelo reconhecimento e demarcação de terras indígenas Tenondé Porã na cidade de São Paulo, com líderes de diferentes vertentes do movimento feminista, movimento negro, movimento dos sem-teto, ativistas pelos direitos dos imigrantes, entre outras tantas pessoas que dedicaram e dedicam suas vidas para que a dignidade e a igualdade cidadã se tornem uma realidade entre nós.

A partir das entrevistas, identificamos lugares importantes dessa história no mapa de São Paulo e conduzimos uma pesquisa de imagens sobre lugares e acontecimentos, que enriqueceram nossa plataforma digital e nosso documentário. A expectativa é que a mobilização de diversas linguagens (entrevistas, cartografia digital, fotografia, documentário) possa contribuir para diminuir a incompreensão em relação aos direitos humanos e chamar a atenção para a importância de seguir firme na luta!