Os limites entre a paquera e o assédio no Carnaval

Quando eu tinha 10 anos de idade, em 2005, viajei com uma amiga para passar o Carnaval em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais. Nas poucas saídas que fizemos ao centro, ficamos entre a praça central e um espaço com música e pessoas fantasiadas. Não demorou muito para que homens bem mais velhos que nós duas chegassem para conversar conosco, claro, com claras e péssimas intenções. Éramos crianças, apenas crianças, e ainda não tínhamos consciência de que aquilo era assédio.

Comecei de fato a gostar muito de Carnaval aos 20 anos, época em que passei a frequentar os poucos blocos que saíam em São Paulo. Com o aumento expressivo da festa de rua, e minha ligação cada vez mais forte com o feminismo, um ponto especificamente me incomodou:

Por que neste período do ano os homens acham que têm ainda mais liberdade para tocar em nossos corpos e nos privar de nossa liberdade?

Por que nós, mulheres, não podemos simplesmente nos divertir e fazer o que estamos com vontade?

Foi aí que, em 2016, eu e minha coordenadora na época no Catraca Livre, junto de outros coletivos e mulheres incríveis, decidimos nos unir com um objetivo em comum: construir um #CarnavalSemAssédio. Em seu primeiro ano, mesmo no início, a campanha conseguiu colocar o debate na mídia e na sociedade e mostrar, de uma vez por todas, que o Carnaval – e qualquer outro momento do ano – não dá autorização para homem algum tocar em nossos corpos, nos constranger e nos estuprar. Mais do que falar sobre este assunto nas redes sociais, fomos às ruas conversar com as mulheres e entregar adesivos contra o assédio, e ainda pedimos o apoio dos blocos e de cantoras e atrizes.

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No segundo ano da campanha, tentamos fortalecer ainda mais a discussão sobre o assédio promovendo mais ações nas ruas. Felizmente, o tema já fazia parte de todos os veículos brasileiros e até mesmo internacionais. Blocos de rua, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, também entraram conosco nesta luta divulgando o #CarnavalSemAssédio e conscientizando seu público a respeito do assunto. Buscamos, também, levantar relatos de mulheres de todo o país sobre casos de assédio e estupro. A cada depoimento, uma nova história que se repete ano após ano, seja em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e em todo o Brasil.

Os dados divulgados pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher, nos dois primeiros anos da campanha explicitaram a urgência de fortalecer a luta contra o assédio durante a folia. De 2015 a 2016, as denúncias de violência no Carnaval cresceram 174%. Já comparando 2016 com o ano passado, o aumento foi de 87,9%.

Um ponto que sempre vinha à tona nas perguntas enquanto trabalhava divulgando a campanha nos blocos era o seguinte:

Qual seria o limite entre a paquera e o assédio no Carnaval?

A resposta que eu dava era simples e direta:

Depois que a mulher disse não, tudo é assédio. O que não tem consentimento ou é uma abordagem que incomoda a mulher, é assédio.

Também mostrava que é possível, sim, chegar para paquerar alguém sem ultrapassar qualquer limite, afinal, todos podem querer beijar e conhecer pessoas no Carnaval, desde que haja respeito acima de tudo.

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#CARNAVALSEMASSÉDIO2018

No terceiro ano do #CarnavalSemAssédio, queremos dar um passo além. Agora, o debate promovido pela ação precisa mostrar quais são os locais onde as mulheres são mais vulneráveis para, assim, exigirmos que o poder público tome providências.

Com o apoio da rede de mobilização Nossas, da qual fazem parte nossos parceiros Minha Sampa e Meu Recife, vamos criar um mapa com relatos de assédios, tabular os dados coletados e levá-los às autoridades competentes, para que, juntos, consigamos pensar em criar políticas públicas que possam combater efetivamente o problema.

Sabe de algum caso de assédio que tenha ocorrido neste e em outros Carnavais? Peça para a pessoa em questão entrar na plataforma Aconteceu no Carnaval e contar sua história. E vale lembrar: o canal oficial para o atendimento de vítimas de violência contra a mulher é o Ligue 180, em que profissionais treinados dão orientações de forma gratuita, 24 horas por dia.

Reforçamos também a nossa rede de parceiros para que a campanha ganhe as ruas. Em 2018, o #CarnavalSemAssédio tem o apoio da ONU Mulheres, da ONG Plan International, dos coletivos Nós, Mulheres da Periferia, Vamos Juntas? e Não é Não, além dos blocos Mulheres Rodadas e Maria Vem com as Outras.

Sua participação é imprescindível para ampliarmos o alcance. Para fazer parte, é fácil: compartilhe fotos nas redes sociais com a hashtag #CarnavalSemAssédio. Para saber mais, veja na página abaixo os materiais da campanha:

Para saber mais, clique aqui para acessar os materiais da campanha.


A Helo deu uma explorada no nosso acervo de filmes e selecionou esses para acompanhar a reflexão sobre assédio, parquera, carnaval e o respeito que a mulher tem por direito. Que tal organizar uma exibição gratuita e disseminar essa discussão?

Corpo Manifesto fala sobre mulheres, seus corpos e suas batalhas, alternando entre performances da artista Nina Giovelli e entrevistas de pensadoras e militantes feministas.

Quem Cala Não Consente – Violência Contra a Mulher no Ambiente Universitário é um documentário curto qu reúne vítimas de violência, especialistas no assunto, autoridades e acadêmicos para falar sobre assédio físico e moral no ambiente universitário.

#meninapodetudo é o resultado de uma pesquisa com jovens de 14 a 24 anos com renda familiar até R$ 6 mil sobre violência física e verbal contra meninas e mulheres.

Ela também nos indicou um filme que não está na plataforma:

Precisamos falar do assédio – Na Semana da Mulher, de 7 a 14 de março de 2016, uma van-estúdio visitou nove lugares em São Paulo e Rio de Janeiro, passando pelo centro, zonas nobres e periferias das duas cidades coletando depoimentos de mulheres vítimas de assédio.

Precisamos Falar do Assédio – Trailer from Mira Filmes on Vimeo.