A Micropolítica no Carnaval

Ao entrar em uma loja de roupas para crianças fui recebida com a seguinte pergunta “Olá! É presente para menino ou menina?” Achei tão ultrapassado. Pensei, “jura que ainda somos  ‘cromo normativos’, em pleno 2018”?

Como entendo que qualquer hora é hora e qualquer lugar é lugar para se falar sobre equidade entre gêneros (equidade entre homens e mulheres), ou seja, feminismo, logo joguei a pergunta de volta “Mas por que? Faz diferença?” A vendedora pareceu surpresa e em seguida me confessou que ela mesmo achava isso uma bobagem. “Mas a maioria das pessoas ainda insiste em classificar os gêneros por cores”, ela disse. Pronto! A criança nem nasceu e já foi logo colocada numa caixa. Rosa com lacinho para ela. Azul para ele.

O perigo dos estereótipos é que eles limitam nossas escolhas como seres humanos. Criam regras de comportamento, no uso da linguagem, no agir, no pensar, nas escolhas de profissão, por onde andamos, aonde vamos.

Nossos sonhos vão sendo moldados tendo como base a cultura patriarcal, que determina funções sociais e propósitos de vida específicos à nossa natureza biológica. Meninos crescem acreditando que podem ser aventureiros, exploradores, donos do mundo, e que devem ser assim. Às meninas, resta a preocupação com a imagem e almejar um casamento. Por isso não gosto muito da palavra princesa  para chamar uma menina. Ela remete à ideia de alguém frágil, que precisa de um príncipe – homem- para salvá-la e lhe dar liberdade. Nada de errado com isso, se essa fosse uma escolha da mulher e não nossa única saída. Também queremos ser cientistas, astronautas e donas do mundo, sem depender de alguém para conseguirmos tudo isso.

A mensagem que chega para nós, por meio da família, da escola, da mídia de massa, do cinema, entre outros meios, infelizmente é a de que a mulher, toda sua existência e seu corpo, inclusive, estão nesse mundo para servir ao outro. O final desse filme a gente já conhece, e eu não poderia discordar mais.

Por isso resolvi me juntar a outras mulheres e criamos o coletivo feminista Não é Não!, que se uniu a partir da ideia de distribuir tatuagens temporárias durante o carnaval. A iniciativa surgiu quando, em janeiro de 2017, mesmo dizendo “Não!”, uma amiga foi assediada por um cara na cidade do Rio de Janeiro.  “Eles não entendem? Quando eu falo não, é não! “disse ela numa roda de amigas. E outra completou “Se eles não entendem, vamos ter que desenhar!”

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Assim, em menos de 48h mais de 40 mulheres se juntaram e financiaram a produção de 4mil tatuagens com os dizeres “Não é Não”, que foram distribuídas no carnaval do ano passado no Rio.

Uma frase tão direta e óbvia que ainda precisar ser repetida: Não é não! Nosso corpo é nosso e apenas nosso.

Quando estamos com pouca ou nenhuma roupa isso só quer dizer que nos sentimos à vontade assim. Não é convite pra nenhum cara nos tocar, se a gente não der consentimento. Roupa, bebida, lugar, companhia, não podem mais ser usados como justificativa para qualquer ato de violência contra nós.

Dados da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) do ano passado revelam que os casos de violência sexual registrados no país aumentaram 88% no carnaval de 2017, se comparado ao mesmo período do ano anterior. Os números assustam, mas também revelam mulheres que estão falando mais sobre o assunto e se posicionando ativamente contra as agressões sofridas.

Não por acaso “feminismo” foi eleita a palavra do ano de 2017 pelo dicionário da editora americana Merriam-Webster’s. As mulheres estão cada vez mais empoderadas e empoderando outras minas. Foi assim que percebemos que a campanha das tatuagens “Não é Não” tinha que ser maior para o carnaval de 2018. Para que qualquer mulher pudesse financiar suas tatuagens, e para chegarmos a mais e mais mulheres, lançamos em Outubro passado o financiamento coletivo pelo site da Benfeitoria. Em 2 meses arrecadamos R$20.500 para produzir 25.000 tatuagens temporárias. A distribuição já começou nos pré-carnavais do Rio, de SP, de Brasília, de BH, de Salvador, de Recife e de Olinda.

Como bandeira de nossa luta, é muito simbólico usarmos nosso corpo, que é justamente o espaço violado pelo outro. Estamos reivindicando o direito sobre nossos corpos. Ninguém pode se sentir à vontade de falar sobre nosso corpo, de tocar ou mesmo de olhar de forma que a gente se sinta constrangida e violada. Isso é assédio.

É o nosso lugar de fala,  somos nós que vamos berrar e exigir o nosso direito por respeito. Por isso o protagonismo da campanha é feminino, por isso só mulheres distribuem as tatuagens para outras mulheres. Representa uma rede de apoio feminina, um escudo de proteção, que simboliza a união: mexeu com uma mexeu com todas! Se nós olharmos umas pelas outras todas estarão sendo cuidadas.

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Isso não significa que os homens não são bem vindos. Pelo contrário, precisamos da união de todos e todas na luta contra o machismo. Acredito que só conseguiremos transformar a cultura por meio de mudanças em cada indivíduo. Repensar nosso comportamento e nossas atitudes, portanto, são exercícios diários. Vale conversar com os amigos, parar de rir de piadas misóginas, não compartilhar mais vídeos machistas. São muitas as formas de agregar e contribuir para o fim da opressão feminina e de nossa evolução como sociedade. E não esquecer: nosso foco está nas mulheres.


A Julia nos recomendou esses dois filmes para assistir e refletir sobre assunto:

She’s beautiful when she’s angry

Chega de fiu-fiu

E também recomendou “Precisamos falar de assédio”, recomendado também pela Heloisa Aun no texto “Os limites entre a paquera e o assédio no carnaval”. Para acessar, clique aqui.