Meu filho tem síndrome de Down – e o lugar dele é em uma escola comum

O sucesso do sistema finlandês é a prova de que a educação inclusiva é melhor para todas as crianças, com ou sem deficiência.

Reconheço que o fato de eu escrever sobre a educação finlandesa exige uma introdução desajeitada. Alguns me conhecem da televisão em papéis como a “prostituta de helicóptero” que seduz parlamentares recém-eleitos no Election Night Armistice de Armando Iannucci, ou não estrelando em Miranda, da Miranda Hart. Outros me conhecem da trilogia do Diário de Bridget Jones como a mulher que não beijou Colin Firth, Hugh Grant nem Patrick Dempsey. Mais recentemente, na sitcom da HBO Veep, fui extremamente grosseira com a vice-presidente Julia Louis-Dreyfus, o ícone de Seinfeld. Por acaso, a minha personagem era da Finlândia.

Como a Veep é parcialmente improvisada, assisti a inúmeros vídeos de políticos finlandeses no YouTube e guardei uma reserva de fatos finlandeses agradáveis para emergências. É um prazer inexprimível aguardar o momento certo para revelar que Helsinque tem um Burger King com sauna, ou fazer referência ao heavy metal finlandês. A minha personagem, Minna, destaca-se pela tendência ao compartilhamento excessivo: “A Finlândia está no topo do índice de sustentabilidade ambiental de Yale e do índice de realização tecnológica da ONU. Por coincidência, também somos os líderes mundiais no consumo de café e no uso de brinquedos sexuais”.

Fiquei obcecada com o sistema de educação finlandês após assistir ao documentário de 2010 Esperando pelo Super-Homem (“Waiting for Superman”), que examina problemas com a educação nos EUA. A Finlândia, por outro lado, lidera rankings educacionais há mais de 20 anos. Dado que meu filho, Olly, tem síndrome de Down, também chamou a minha atenção o fato da Finlândia ter o sistema educacional mais inclusivo do mundo.

“Com o apoio adequado, as crianças com síndrome de Down se saem muito melhor no ensino comum.”

Olly está no oitavo ano e adora a escola dele, mas também enfrenta desafios. Aqui no Reino Unido, as crianças com síndrome de Down são transferidas para escolas especiais até o nono ano. Na Finlândia, menos de 2% das crianças com deficiência frequentam escolas especiais, e há 40 anos eliminaram os equivalentes na escola primária. Como resultado, a grande maioria das crianças finlandesas aprende, brinca e cresce junto. Lá, as crianças não são reprovadas; o ensino se adapta. Se uma criança precisa de ajuda extra porque há problemas em casa, o finlandês não é a sua primeira língua ou tem alguma deficiência, os professores farão de tudo para que aprendam; 30% das crianças da Finlândia recebem algum tipo de ajuda especial nos primeiros nove anos de escola.

Há tantas crianças talentosas com deficiência que poderiam brilhar nas escolas comuns com o apoio adequado. No entanto, o debate político atual no Reino Unido está se posicionando contra a inclusão, como se essa fosse uma ideologia irrealista que sempre resultaria em desempenho inferior. O sucesso da Finlândia revela o contrário.

Precisamos de um sistema de educação inclusiva por muitos motivos.

Primeiro, para que crianças com necessidades adicionais possam participar de atividades culturais e econômicas nas suas comunidades. O Prison Reform Trust relata que 70% dos detentos no Reino Unido precisam de serviços de saúde mental. O impacto da exclusão de crianças é enorme e duradouro.

Segundo, para que crianças típicas conheçam seus vizinhos. Elas precisam reconhecer a diversidade dos seres humanos, e que apesar de tudo podemos criar relacionamentos profundos. Em 2010, um estudo do Departamento de Justiça dos EUA mostrou que adolescentes com deficiência entre 12 e 15 anos de idade eram duas vezes mais propensos a serem vítimas de crimes violentos do que seus pares sem deficiência. No Reino Unido entre 2014 e 2016, crimes de ódio contra crianças com deficiência aumentaram em 150%. Podemos mudar esse cenário, conhecendo um ao outro e fazendo-nos conhecidos. As crianças aprendem muito interagindo umas com as outras, inclusive como ser gentil com alguém com uma vida mais difícil.

Terceiro, porque uma sociedade diversa é uma sociedade mais rica. Recentemente, conheci uma mãe finlandesa cuja triagem pré-natal revelou uma alta probabilidade do seu filho nascer com síndrome de Down. “Eu vou mantê-lo”, disse. “Na Finlândia, todos nós crescemos juntos, tenho amigos com síndrome de Down. Afinal, as mulheres finlandesas são fortes”.

Sou atriz há 20 anos, então é emocionante testemunhar o crescente impacto dos documentários sobre o mundo. Agora estou trabalhando com o Edital Videocamp de Filmes 2018, lançado na ONU no Dia Mundial da Síndrome de Down em parceria com o UNICEF. O Edital premiará um cineasta com US$ 400.000 para produzir um filme sobre o tema da educação inclusiva.

O objetivo do Edital é disseminar para o público mais amplo possível filmes que mudem opiniões e provoquem debate.

O acesso ao seu catálogo de filmes é gratuito, então qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode organizar uma exibição pop-up. Até o momento, o Videocamp já possibilitou mais de 19.000 exibições em lugares diversos, desde a sede da ONU até a Amazônia. É preciso trazer para a vida as histórias de inclusão na educação com todos seus detalhes pessoais, dolorosos, engraçados, mundanos e comoventes. Por exemplo, a imensa sensação de vitória após um aprendizado, os abraços e brigas em família no portão da escola, ou a alegria irreprimível de rir com amigos na assembleia. Quando as pessoas puderem ver esses momentos na tela grande, talvez as políticas públicas também comecem a mudar.